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Lula, a vitória da Dilma e minha família

4 de Janeiro de 2011

Quem sou eu

Nasci em BH, Minas Gerais terra da nossa presidenta, cheguei em São Paulo aos 3 anos levada pelos meus pais, nunca mais voltei a BH, mas por falta de oportunidade do qualquer outra coisa.

Meus pais

Minha mãe nasceu em São Paulo e viveu um misere danado, passou muita fome, frio e medo morando num barraco em uma favela aqui em Sampa. Trabalhou desde de criança e não teve infância como muitas crianças brasileiras que foram obrigadas ao trabalho escravo.

Meu pai mineiro do Sul de Minas, é de uma família muito simples, minha avó era costureira e passava noites trabalhando para sustentar os filhos, ele veio para São Paulo tentar a sorte como vários migrantes que aqui vivem, passou muito “perrengue”, e conseguiu entrar para a faculdade de letras na USP, trabalhando muito, aos poucos foi melhorando de vida, tornou-se professor na época professor era uma profissão valorizada.

Amantes de livros meus pais sempre nos incentivaram a ler, tanto eu como meus 4 irmãos somos bons leitores, não faltava discussões sobre cinema, literatura, música, teatro e é claro, política.

Meus pais sempre foram muito batalhadores e sempre fizeram de tudo para que pudéssemos estudar. Eu e meus irmãos estudamos em escolas públicas, pois o poder aquisitivo da família não permitia pagar uma escola particular.

Infância e juventude

Estudar e ler essa era a nossa obrigação quando crianças, claro, além de brincar com os amigos da rua.

Me lembro das nossas longas conversas sobre política, meu pai e minha mãe ficavam revoltados aos falar dos milhares de brasileiros e brasileiras que passavam fome, da seca do nordeste, da dificuldade em ver um governo que realmente pensasse no povo e terminasse com tanto sofrimento.

Lembro que minha mãe nos levava aos asilos, as entidades sociais como AACD, Laramara,  e tantas outras que dava assistência as crianças e adultos com algum tipo de deficiência e nos ensinava a não ter preconceitos.

Lembro do meu pai nos indicar vários livros como Tortura Nunca Mais, sobre a vida de Gue Guevara, Fidel Castro, entre outros de cunho histórico e político. Após a leituras conversávamos longamente sobre o que tínhamos lido e cada contava sua história de vida e o contexto político de cada fase.

Histórias de militantes

Minha mãe conta que conheceu Lamarca em meados dos anos 60, que ela estava num boteco em São Paulo e que estavam planejando distribuir folhetos contra a ditadura, em um determinado momento entrou no bar um rapaz alto e com sobretudo, ela não sabia quem era, não o reconheceu (ele tinha feito plástica). Um carro o esperava na parte da frente do bar e outro na parte de trás. Ela contou que de repente alguém fez um sinal para que todos fugissem, ela entrou meio que de “gaito” na história saiu correndo junto com eles, disse que pulou um muro gigante para entrar no carro estacionado na parte de trás do bar. Disse que rodaram quilômetros para despistar a política e que os companheiros pediram a ela que descesse do carro e fosse para casa, pois ela estava correndo perigo e que o Lamarca estava com eles.  Largada no meio da estrada e morrendo de medo ela voltou para sua casa.

Essa história é uma das histórias contadas por ela, mas foram muitas outras como a morte de um companheiro e o sumiço do seu primo nunca mais encontrado.

Meu pai também passou por esse período da história e nos contava do medo que ele tinha de dar aula e dizer algo que fosse considerado subversivo. Ele diz que tinha muitos policiais infiltrados entre os alunos e que viu muitos professores saírem presos da escola na qual lecionava. Disse que “comeu” muito folheto subversivo e escondeu vários amigos para que não fossem presos.

Um dos momentos mais simbólicos da vida militante dos meus pais foi quando colocaram em minha casa um quadro de Che Guevara, que até hoje está lá na parede, com a seguinte frase:  Hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas! O quadro deve ter sido pendurando no início dos anos 80, não sei precisar a data.

O encontro com “o cara” e as Diretas Já

No início dos anos 80 durante a campanha pelas Diretas Já, minha mãe foi buscar materiais para a campanha e como não tinha quem ficasse conosco, 4 crianças, ela nos levou ao Sindicato dos Metalúrgicos. Era uma viagem longa e quando chegamos lá estávamos cansados e com fome, eu devia ter por volta de 6 anos, meu irmão mais novo tinha completado 2 anos.

Cansados, conta minha mãe, chegamos ao Sindicato e quem estava lá distribuindo material de campanha era “O Cara”, Lula. Barbudo, com roupas maltrapilhas, muito simpático e sorridente, veio conversar com a minha mãe, meu irmão mais novo resolveu falar choramingando, “mãe tô com fome”, Lula saiu correndo, foi até o boteco mais próximo e voltou com sanduíches para nós, claro que adoramos!

Minha mãe quase morreu de vergonha do meu irmão pedir comida para o Lula, o que foi prontamente resolvido por ele. Ficamos felizes pelos sanduíches e também por todo carinho e os abraços do “cara”. Sempre carinhoso, Lula dá atenção especial às crianças, gosta de conversar e fazer cafuné e foi naquela época foi em nossas cabeças. Esse foi nosso encontro com o Lula. Mas não terminou aí não, pois meu irmão muito “bocudo” falou para “o cara”, que não sabia porque minha mãe levava os folhetos, porque toda vez que ele tentava entregar para as pessoas ninguém queria pegar. Lula morreu de rir e falou, não liga não filho, sempre tem alguém que pega.

Outra lembrança que tenho é de ver meus pais se arrumando para ir ao comício das Diretas Já no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 16 de abril de 1984. Com bandeiras e muita garra foram à luta!

Sempre motivados a seguir em frente em busca de um país melhor. Naquela época a inflação acabava com o salário da família, tinha remarcações de preços a todo o momento, meu pai estocava comida para que não faltasse nada para nós. Até que um dia, ele ficou desempregado e sem nada para comermos. Temos difíceis, mais minha mãe, batalhadora resolveu vender cosméticos e naquela época era difícil vender coisa considerada supérflua, sem nada para nos dar de almoço minha mãe chorou e pediu a Deus que nos ajudasse, poucas horas depois uma cliente rica dela ligou e fez um boa compra. Agora teríamos comida na mesa. Meses depois meu pai arrumou emprego em um banco,  ganhando muito menos do que ganhava quando era professor.

Comida felizmente não faltava, pois meus pais davam um duro danado para conseguir sustentar a filharada.

Votar para presidente

Fato marcante! A primeira eleição direta para Presidente da República em 1989.

Eu tinha 13 anos e para mim foi pura diversão, na época podíamos fazer boca de urna, então já viu, minha mãe pegava a filharada e íamos até os redutos malufistas fazer boca de urna pro Lula.

A gente adorava! Porque juntava um monte de militantes bem animados com suas bandeiras vermelhas, fazendo um verdadeiro auê. A gente ia junto e ajuda a distribuir os santinhos, muitas vezes encontrava Marta e Suplicy, Mercadante, Genuíno e vários outros políticos nessas andanças. Algumas vezes dava briga e muita confusão com os malufistas, era uma troca de provocações. Nós crianças achávamos o máximo aquela agitação toda.

Lula perdeu para Collor e deu no que deu. Lembro do desespero do meu pai quando assistiu pela TV que sua poupança estava bloqueada, lembro que ele entrou com recurso e usou o dinheiro para quitar a casa na qual moramos. Collor sofreu impeachment e Itamar Franco assumiu o resto vocês já sabem.

Era 1994 votei pela primeira vez e foi no Lula

Aos 17 anos já podia votar e achei o máximo, corri tirar meu título e me lembro  ir com minha família  até o local da votação e votar no Lula. Claro, que tinha bandeiras e muito material de campanha em casa. O voto sempre foi sagrado lá em casa e animação antes da eleição também. Sempre votamos no mesmo colégio eleitoral e vamos todos juntos votar, em todas as eleições esse é o ritual.

Lula perdeu a eleição, mas nunca perdemos a esperança de ver um operário presidente.

Era FHC foi uma época muito difícil

Eu estava entrando na faculdade e procurando emprego, o que não era tarefa fácil naquela época. Entrar na USP nem pensar, USP é pra gente rica e não para mim que tinha que trabalhar e estudar.

Fui trabalhar em uma empresa de plano de saúde, o que dava pra pagar a faculdade, mas não sobrava nada, lembro de sair às 5h da manhã e voltar às 24h10 após a faculdade. Todo dinheiro que recebia pagava a mensalidade, não sobrava nadinha para mim, nem para comer um sanduíche na faculdade, quando chegava na hora do intervalo ficava na sala, pois tinha fome, mas nenhum dinheiro para pagar um lanche. Com vergonha dos meus colegas de classe evitava sair no intervalo, pois eles tinham dinheiro e eu não. Naquela época não tinha Prouni e pobre tinha que se virar para pagar a faculdade.

Foi com sacrifício, pois durante a minha faculdade fiquei desempregada 3 vezes em 4 anos. A economia ia mal, os salários eram baixos e a competição altíssima, a ponto de meus colegas de faculdade arrancarem do mural as vagas que apareciam para diminuir a concorrência. É mole?

Quem viveu na era FHC sabe como as coisas estavam difíceis, por isso quando alguém me fala que o governo dele foi ótimo fico pensando, ótimo para quem? Para mim foi péssimo!

Enfim, me formei em 1999 e com um diploma debaixo do braço achei que as coisas iam melhorar, mas isso não aconteceu 1 ano de desemprego, vivendo de bicos e totalmente sem esperança. Foram anos de muita tristeza, pois era jovem e queria ser produtiva.

2002 o ano da virada

Chegou 2002 e as eleições. Eu e minha família fizemos campanha juntos e fomos votar juntos, tudo em família, como sempre. E elegemos um operário nordestino como presidente do Brasil. Foi muita emoção e ansiedade. Emoção pela conquista do povo, misturada com a esperança de um país mais justo.

Comemoração na Av. Paulista

Com bandeiras nas mãos fomos para a Av. Paulista comemorar. Choramos no meio do povão, nos abraçamos, rimos, uma sensação única.

Foram também momentos de ansiedade, pois temíamos que Lula poderia sofrer um impeachment, sabíamos da árdua tarefa que o esperava, pois enfrentaria uma oposição raivosa e uma campanha midiática insana e cruel.

Lula foi guerreiro e conseguiu vencer os desafios, embora muitos projetos não saíram do papel, pois seria impossível conseguir aprovação no congresso oposicionista. Lula também enfrentou companheiros, não tão companheiros assim, e quase foi ao impeachment, mas soube dar a volta por cima e seguir em frente.

2010 último ano de Lula no governo, muitas conquistas e o país no rumo certo. Lula fez um ótimo governo e se tornou o presidente mais popular do Brasil. Orgulho total!

Eleições Dilma Presidente

Em família como sempre, fizemos campanha para a eleição da primeira mulher presidente do Brasil, uma mulher que enfrentou a ditadura, que lutou para que hoje possamos votar diretamente nos nossos governantes. Uma mulher guerreira!

A campanha do Serra e do PIG (Partido da Imprensa Golpista) foi terrível, noites sem dormir, participação em comícios, conversas com amigos para tentar mudar o voto, horas na internet desmentido os e-mails e acusações nefastas que surgiam de todos os lados.

Foram meses de tensão e muitas lágrimas. Muitas vezes achamos que seria impossível vencer a máquina de mentiras do PIG e do Serra. Exaustos e torcendo para reverter a situação que levou Dilma para o segundo turno, fomos votar e como sempre estávamos todos  juntos.

Final das eleições: Dilma Presidenta

Choramos muito, gritamos, penduramos a bandeira do PT (conosco desde 1995) no lado de fora da casa e nos sentimos aliviados.

Meu pai teve uma crise de enxaqueca e minha mãe de hipertensão. Por isso não estive na Av. Paulista para comemorar. Valeu a luta!

Posse da Dilma
Em casa comemoramos e bebemoramos também. Comprei champanhe e brindamos quando Dilma colocou a faixa presidencial.

Choramos muito. Meus pais emocionados se lembram dos amigos que tombaram na ditadura militar e que não estão aqui entre nós para ver essa vitória. Gritavam os nomes dos amigos que morreram ou foram torturados naquela época.

A simbologia de termos uma mulher presidente, que lutou e sobreviveu aqueles horrores, é muito grande. Algo que eles jamais poderiam imaginar que veriam.

Sei que a luta continua precisamos tirar ainda milhões de brasileiros que estão na miséria e fazer do Brasil um país mais justo.

Valeu companheiros!

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