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Uma análise da violência no Rio. Antes que a Globo destrua o Rio

23 de Novembro de 2010

Reproduzo o post de PHA. Vale a pena ler! http://www.conversaafiada.com.br/pig/2010/11/23/uma-analise-da-violencia-no-rio-antes-que-a-globo-destrua-o-rio/

Só o Carlos Lacerda para dar um jeito nisso

A Globo e os membros da elite que representa sofrem do medo de que, um dia, a favela vá descer.
É o temor do contágio com o pobre.
Pobre é bom na senzala, ou lá em cima, no morro.
Clique aqui para ler “preconceito contra nordestino é contra o pobre”, entrevista da professora Tânia Bacelar.
A primeira página do Globo de hoje – clique aqui para ver – leva o leitor para o Haiti.
A Globo tem uma incompatibilidade genética com o Rio: o Rio tem pobre e não vota na elite.
Enquanto Carlos Lacerda não voltar a governar o Rio – e mandar os pobres para a Vila Kennedy – a Globo não sossega.
Por isso, para refletir sobre a violência do Rio, uma respeitável instituição britânica – e tinha que ser estrangeira ! -, a BBC, entrevistou pesquisador da UERJ.
Amigo navegante, cuidado com a Globo: ela emburrece.

Sociólogo vê alarme exagerado com arrastões no Rio de Janeiro

Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Ignacio Cano diz que não há uma contabilidade oficial de arrastões

Apesar dos arrastões registrados no Rio no fim de semana e nesta segunda-feira, o sociólogo Ignácio Cano diz que ainda é cedo para falar em uma “onda” de crimes do tipo.
Pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ele prefere se ater às taxas oficiais de violência – que indicam queda na incidência de roubos nos últimos anos.

De acordo com Cano, a ideia de que os assaltos seriam uma retaliação de criminosos às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), como afirmado nesta segunda-feira pelo governador Sérgio Cabral, ainda é mera especulação.

Clique Leia mais na BBC Brasil: Governo do Rio atribui arrastões a pacificação de favelas

O Rio vive em clima de tensão com uma série de assaltos a motoristas em vias da cidade e da região metropolitana desde o fim de setembro. Nos ataques, criminosos bloqueiam o trânsito com seus carros e assaltam motoristas e pedestres, às vezes levando seus carros ou mesmo ateando fogo a eles.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Cano:

BBC Brasil – Em sua opinião, a que se deve a onda de arrastões na cidade?
Ignácio Cano – Tenho ressalvas em relação a afirmar que temos uma onda de arrastões. Não há uma contabilidade oficial de arrastões, porque não é um termo técnico na área de segurança, e sim um termo difuso aplicado a um roubo em série.

Mas tem muito peso no Rio, porque remete àqueles arrastões na praia que geraram um pânico muito grande nos anos 1990. A praia é o lugar de lazer por excelência no Rio, e a ideia de que poderia se tornar um espaço perigoso teve um impacto muito grande na época.
Os arrastões remetem a esse mesmo temor. Mas, se você analisa o número de roubos, houve uma redução muito grande nos últimos anos. Acho que não precisaria desse nível de alarme social que está sendo criado.

BBC Brasil – O senhor acha que existe uma tendência à dramatização?
Cano – Sim, com certeza. As pessoas lidam com insegurança no Rio de forma cíclica e dramática. Para conviver com o alto nível de violência na cidade, as pessoas tratam como se ela não existisse. Mas, então, surge um evento de grande repercussão e vira uma pauta central na cidade, todos discutem, é uma grande catarse.

Você pode escrever o histórico da segurança pública no Rio a partir desses eventos, como o ônibus 174, a chacina da Baixada, o caso do menino João Hélio, os traficantes no hotel de São Conrado.

Na verdade, o que acontece na cidade é muito mais amplo e muito mais grave, mas as políticas públicas são desenvolvidas em função desses grandes eventos, que estão sempre vinculados à classe média alta ou às áreas mais nobres. A atenção depende basicamente do perfil das vítimas.
Para democratizar a segurança pública, as políticas públicas devem vir não em função desses grandes eventos, quase sempre em áreas da zona Sul, e sim basear-se nas taxas de violência.

BBC Brasil – Nesta segunda-feira, o governador Sérgio Cabral afirmou que os arrastões são claramente uma reação ao cerco imposto aos traficantes pelas UPPs. O senhor concorda com essa teoria?
Cano – Não temos como avaliar. Pode ser ou pode não ser. Gostaria de ter uma contabilidade mais confiável para saber se é uma onda de arrastões ou não, e o que está aumentando. Para mim, é mais importante observar número de roubos que vem diminuindo do que o de arrastões.

É claro que, na zona Sul, o perfil do crime vem mudando com o avanço das UPPs. O tráfico perdeu o controle territorial e teve que mudar de estratégias. Mas não sabemos como isso está afetando esses grupos financeiramente. Se a coisa tiver apertando, o roubo pode ter passado a ser uma alternativa.

BBC Brasil – O reconhecimento de uma relação com as UPPs por parte do governo pode mudar algo nas estratégias de Secretaria de Segurança do Rio?
Cano – Acho que essa afirmação é uma forma de o governador dizer que isso está acontecendo porque estamos ganhando uma batalha maior. Como se fossem os efeitos colaterais, diante de um trunfo maior.

O perigo, aqui, é as classes médias acharem que a sua segurança está sendo comprometida por causa das UPPs.
Se passarem a acreditar que o investimento nas UPPs é contraproducente para quem não mora nas favelas, isso poder acabar com a sustentabilidade política do projeto. Sérgio Cabral sempre fez questão de associar a expansão das UPPs a benefícios também para o asfalto, justamente para não correr esse risco.

BBC Brasil – Tirar o tráfico das comunidades é um mérito reconhecido das UPPs. Mas o que precisa ser feito para erradicá-lo?
Cano – O objetivo das UPPs não é e nem pode ser erradicar o tráfico. Ninguém erradica o tráfico, ele existe na Dinamarca, no Canadá. A questão é conseguir reduzir os níveis da violência e de controle da população por grupos armados. Os moradores agora podem voltar para casa quando quiserem, andar pelos becos, não há confronto armado.

BBC Brasil – Diante da queima de carros e do lançamento de uma granada em um veículo da Aeronáutica, no domingo, alguns jornais falaram no uso de táticas de guerrilha.
Cano – Mas não se pode falar nisso aqui. Não há uma guerrilha que queira tomar o poder. O verdadeiro crime organizado não é o que vemos nas favelas, e sim o que está infiltrado em todos os Poderes. Esse crime organizado existe, e seu objetivo é parasitar o aparato do Etado para continuar extraindo lucros. Mas é outro nível, bem diferente de distribuir papelotes de cocaína.

No Brasil, há um medo de que a exclusão social se traduza, em algum momento, em violência política, como na Colômbia. Cada vez que há um episódio mais grave, cada vez que um preso menciona o Che Guevara ou apresenta ideias mais politizadas, volta a se falar em guerrilha, em terrorismo, no perigo de uma “colombianização” do Brasil.

BBC Brasil – Como o senhor acha que a população deve avaliar a situação?
Cano – Acho que a gente tem que olhar mais para os números e para as taxas de incidência criminal, que estão caindo, e menos para o que aconteceu (nos últimos dias). Antes, 20 pessoas podiam morrer numa madrugada e ninguém ficar sabendo. Agora, se tem um arrastão, isso gera um pânico e ninguém pensa em outra coisa. Então, é importante olhar para o quadro mais geral.
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