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Tamiflu: quem fez lobby para quem

21 de Setembro de 2010

Fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/saul-leblon-quem-e-mesmo-que-fez-o-lobby-do-tamiflu.html

Saul Leblon: Quem é mesmo que fez o lobby do Tamiflu?

 

O dispositivo midiático que fez lobby pró-Roche e pró-Serra, alardeando o despreparo do país para enfrentar uma pandemia de gripe suína, em 2009, e a insuficiente estocagem de Tamiflu pelo Ministério da Saúde, agora acusa o governo de ter comprado quantidades desnecessárias do remédio. E denuncia um lobby por trás desse erro. Serra agora não está mais preocupado em anabolizar sua ‘experiência’ como ex-ministro da Saúde. Ele precisa agora de algo mais forte que uma gripe suína para impedir a vitória de Dilma no 1º turno.

Saul Leblon, na Carta Maior

VEJA ‘denuncia’ na edição desta semana que o governo adquiriu quantidades desnecessárias do medicamento Tamiflu para combater a gripe suína, em junho de 2009. A sobrecompra, segundo ‘reportagem’ teria seu sucesso creditado a ação de um lobby que atuava dentro da Casa Civil e do qual participaria o ex-assessor do órgão –que deixou o cargo – Vinícius de Oliveira Castro. Pela cumplicidade, Castro teria recebido $ 200 mil de propina, pagos no episódio dentro do próprio órgão.

Recuerdos:

1. Em 24 de abril de 2009, a Organização Mundial de Saúde emitiu um alerta sobre um novo tipo de gripe causada por variante do vírus da influenza suína; menos de três meses depois, em 11 de junho, a organização afirmava que a doença já se transformara em pandemia. No Brasil até então, tinham sido confirmados apenas 52 casos – 75% deles, porém, contraídos fora do país.

2. Naquele momento, Serra disputava com Aécio a candidatura do PSDB presidência da República. Interessava ao tucano anabolizar sua atuação como ex-ministro da Saúde, por contraste. Ou seja, caracterizando o ‘despreparo’ do atual governo para enfrentar a pandemia da gripe suína.

3. A luta renhida entre Serra e Aécio incluiria dois golpes de alta octanagem, para emprestar um termo recorrente hoje entre certos colunistas. “ Pó pará, governador?, era o título provocativo de um artigo publicado no Estadão, em fevereiro de 2009, assinado por Mauro Chaves. Em tom chantagista, o texto defendia a precedencia de Serra na corrida presidencial, insinuando que Aécio costumava aspirar algo mais que cargos. Com o mesmo fair play, no dia 3 de novembro de 2009, o jornalista Juca Kfouri, admirador assumido de Serra, dispararia em seu blog a seguinte notinha: “Covardia de Aécio Neves”. Trechos:

“Aécio Neves, o governador tucano de Minas Gerais, que luta para ter o jogo inaugural da Copa do Mundo de 2014, em Belo Horizonte, deu um empurrão e um tapa em sua acompanhante no domingo passado, numa festa da Calvin Klein, no Hotel Fasano, no Rio. Depois do incidente, segundo diversas testemunhas, cada um foi para um lado, diante do constrangimento geral..”

4. É nesse ambiente de absoluta isenção e elevado senso ético que a estratégia do pânico em relação à gripe suína, um tema palatável a Serra, recebeu do dispositivo demotucano um tratamento pedagógico. O episódio ajuda a entender porque o presidente Lula disse recentemente que a imprensa tem lado. E não é o da informação isenta.

5. Manchetes da Folha, domingo, 19 de julho de 2009. Na 1º página:

“Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses”

No título interno: “Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas”

6. O alarmismo foi duramente criticado pela comunidade médica, conforme documentou brilhantemente o blog da jornalista Conceição Lemes, especializada na área de saúde. O próprio ombudsman da Folha então, Carlos Eduardo Lins e Silva, questionaria o jornal em comentário corajoso, dia 26 de julho. Título: ‘No limite da irresponsabilidade”. Trechos:

I] ‘…Ao ler na capa chamada sobre a gripe A, até os menos paranóicos devem ter achado que chances de contrair doença são enormes…’; II] A reportagem e principalmente a chamada de capa sobre a gripe A (H1N1) no domingo passado constituem um dos mais graves erros jornalísticos cometidos por este jornal desde que assumi o cargo, em abril de 2008; III] Quem estivesse febril e com tosse ao abrir o jornal pode ter procurado assistência médica.É quase impossível ler isso e não se alarmar…”

7. O dispositivo midiático demotucano não recuou, nem fez autocrítica. Leia , com exclusividade, o email enviado pelo autor da matéria alarmista, Hélio Schwartsman, a um pesquisador , em 30 de julho de 2009. Schwartsman caça argumentos para defender sua irresponsabilidade jornalística. Trechos do email enviado por ele [omitindo-se o nome do destinatário]:

“ O., tudo bom? escrevo-lhe porque o ombudsman caiu na onda “tranquilista” do ministério e detonou minha matéria em sua última coluna dominical. Estou cogitando de responder. Vi q vc cita predições britânica e dos EUA […] Minha pergunta é se vc viu mais alguma coisa recente nesta linha para incluir no texto que estou preparando?”

8. Em setembro de 2009, a editora do UOL Ciência, Tatiana Pronin, viaja à Basiléia, na Suíça, atrás de ‘alguma coisa’. Viaja a convite da Roche, fabricante do medicamento Tamiflu. Tatiana volta com a seguinte manchete postada no dia 7 daquele mês, às14h30: “Estoque de Tamiflu do Brasil não atende recomendação da OMS, diz fabricante do remédio”. Trecho:

“… Em situações de pandemia como a da gripe suína, ou influenza A (H1N1), a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que um país tenha medicamento suficiente para tratar pelo menos 25% da população. No Brasil, porém, os estoques disponíveis até agora dariam para suprir apenas 5% dos brasileiros. A informação foi divulgada pela fabricante do antigripal Tamiflu (oseltamivir), a Roche, em uma conferência internacional organizada pela empresa nesta segunda-feira (7) na Basileia, na Suíça, onde fica a sede do laboratório. ..”

9. O dispositivo midiático age então em ordem unida, às vezes com as mesmas palavras, as mesmas manchetes, na defesa dos mesmos interesses entrelaçados: os da Roche e aqueles da candidatura Serra. Um queria vender mais medicamentos; o outro, acusar a insuficiência dos estoques na área da saúde, de modo a desqualificar o governo Lula e acumular pontos contra Aécio na disputa interna do PSDB.

10. Manchete padrão daquele período estampada no dia seguinte à da UOL, pelo Correio Braziliense: “Estoques de Tamiflu estão muito abaixo do recomendado…” Trecho: “… Ministério da Saúde só tem antiviral suficiente para atender a 5% da população brasileira, quando OMS sugere que o percentual mínimo seja de 25% …’

11. Em 10 de agosto de 2010, 14 meses depois de ter declarado o nível máximo de alerta pela aparição do vírus, a OMS anuncia fim da pandemia.

Segundo o balanço do organismo, a gripe matou 18.449 pessoas em 214 países [é muito, mas é a metade do que mata o trânsito brasileiro por ano]. Em todo o Brasil, foram 1.705 vítimas – casos dolorosos, mas longe de configurarem a tragédia alardeada pelo dispositivo midiático demotucano.

12. Agora, na reta final das eleições presidenciais, as posições se invertem. O dispositivo midiático que fez lobby pró-Roche e pró- Serra, alardeando o despreparo do país diante da pandemia e a insuficiente estocagem de Tamiflu pelo Ministério da Saúde, acusa o governo de ter comprado quantidades desnecessárias do remédio. E denuncia um lobby por trás desse erro.

13.
A versatilidade, às vezes, é um sintoma de desespero. Serra não está mais preocupado em anabolizar sua ‘experiência’ como ex-ministro da Saúde. Nesse momento, ele precisa de algo mais forte que uma gripe suína para impedir a vitória de Dilma no 1º turno. Corrupção é o nome da “nova pandemia” a ser martelada nas manchetes e comentários do dispositivo midiático pelos próximos 13 dias, incessantemente, em escalada furiosa e alarmista. Até, quem sabe, causar pânico.

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